15 de dez de 2009

UM TEÓLOGO NO CANTEIRO DE OBRAS

Marcelo Rezende, teólogo e especialista em Hebraico, Aramaico e Grego, atualmente ele esta pesquisando na area linguistica de textos bíblico antigos e foi contemplado na Folha Especial da Folha de Londrina, eis aqui o seu relato reportagem de Carolina Avansini.

Ape­sar do cur­so uni­ver­si­tá­rio e de ­duas pós-gra­dua­ções, foi na cons­tru­ção que o pro­fis­sio­nal en­con­trou em­pre­go. His­tó­rias as­sim são ca­da vez ­mais co­muns.
Quan­do Mar­ce­lo Oli­vei­ra Re­zen­de, 36 ­anos, dei­xou es­ca­par uma ex­pres­são em la­tim no can­tei­ro de ­obras on­de tra­ba­lha­va co­mo ser­ven­te de pe­drei­ro, cau­sou des­con­for­to en­tre os co­le­gas. Es­tra­nhe­za ­maior, po­rém, vi­ven­ciou o pró­prio Mar­ce­lo que, com gra­dua­ção em Fi­lo­so­fia e Teo­lo­gia, ­duas pós-gra­dua­ções e um cur­rí­cu­lo que in­clui apre­sen­ta­ção de ar­ti­gos es­cri­tos por ele em con­gres­sos re­li­gio­sos, aca­bou se pro­fis­sio­na­li­zan­do na cons­tru­ção ci­vil por ad­ver­si­da­des da vi­da.
A his­tó­ria, que cha­ma aten­ção pe­lo de­sen­con­tro en­tre   ca­pa­ci­da­de in­te­lec­tual e vi­da pro­fis­sio­nal, não é úni­ca. Re­cen­te­men­te, no Rio de Ja­nei­ro, a ins­cri­ção de can­di­da­tos com mes­tra­do e dou­to­ra­do em um con­cur­so de ga­ris ga­nhou des­ta­que na im­pren­sa na­cio­nal pe­la mes­ma in­com­pa­ti­bi­li­da­de. No ca­so   do teó­lo­go que rea­li­zou ­seus es­tu­dos no se­mi­ná­rio ca­tó­li­co, é es­pe­cia­li­za­do em Fi­lo­so­fia e His­tó­ria An­ti­ga e Me­die­val e tem for­ma­ção pa­ra tra­du­zir 12 lín­guas an­ti­gas - en­tre ­elas la­tim, gre­go e he­brai­co, o so­nho de se tor­nar car­deal foi des­truí­do de­pois de qua­se 20 ­anos de es­tu­dos.
Por dis­cor­dar de al­guns dog­mas do ca­to­li­cis­mo, ele aca­bou sain­do da ins­ti­tui­ção. Cria­do pe­los   ­tios que o co­lo­ca­ram no se­mi­ná­rio aos 9 ­anos, Re­zen­de es­tu­dou um tem­po no Rio de Ja­nei­ro, on­de nas­ceu, trans­fe­rin­do-se pa­ra Lon­dri­na acom­pa­nhan­do a fa­mí­lia. Quan­do dei­xou o se­mi­ná­rio, pas­sou a mo­rar ‘‘de ­favor’’ na ca­sa de ami­gos. ‘‘Eu ti­nha que tra­ba­lhar pa­ra   ga­nhar di­nhei­ro e pa­gar mi­nha es­ta­dia. A úni­ca opor­tu­ni­da­de que apa­re­ceu foi ser­ven­te de pe­drei­ro. Sem ou­tra coi­sa pa­ra fa­zer, aca­bei ­aceitando’’, dis­se ele, que atual­men­te ga­nha a vi­da co­mo pin­tor au­tô­no­mo e tam­bém res­tau­ra mó­veis an­ti­gos. ‘‘Na épo­ca, per­ce­bi que o ser­vi­ço de pin­tu­ra era ­mais le­ve, ­mais rá­pi­do e pos­si­bi­li­ta­va ga­nhos maio­res. Pro­cu­rei uma opor­tu­ni­da­de nes­sa ­área e tra­ba­lho com is­so até ­hoje’’. So­bre o cho­que cul­tu­ral so­fri­do no pe­río­do   em que ­saiu do se­mi­ná­rio e pas­sou a tra­ba­lhar no can­tei­ro de ­obras, ele afir­ma que a con­se­quên­cia foi uma enor­me frus­tra­ção. ‘‘Com to­da a ca­pa­ci­da­de in­te­lec­tual que eu ti­nha na épo­ca, pas­sei a ca­var va­le­tas e car­re­gar ­concreto’’, exem­pli­fi­cou. On­ze ­anos   de­pois do acon­te­ci­do, Re­zen­de, ho­je, acei­ta bem a no­va vi­da e ga­ran­te que até gos­ta do tra­ba­lho. ‘‘Apren­di a fa­lar a lín­gua dos ­peões e te­nho ex­ce­len­tes ami­gos no se­tor da cons­tru­ção. Até pen­so em dar au­las nu­ma uni­ver­si­da­de, mas não pre­ten­do lar­gar a pin­tu­ra por­que é uma ati­vi­da­de que dá ­mais di­nhei­ro que a vi­da ­acadêmica’’, ex­pli­cou. O ex-se­mi­na­ris­ta es­tá ca­sa­do e, ­além dos ser­vi­ços de   pin­tu­ra e res­tau­ra­ção de mo­bí­lia, dá au­las de Fi­lo­so­fia pa­ra alu­nos ca­ren­tes de um cur­si­nho pré-ves­ti­bu­lar gra­tui­to, de for­ma vo­lun­tá­ria. Ape­sar de uti­li­zar par­te da ex­ten­sa qua­li­fi­ca­ção que pos­sui nes­sa ati­vi­da­de, ele não dei­xa de ex­pe­ri­men­tar a frus­tra­ção em al­guns mo­men­tos de re­fle­xão so­bre a vi­da pro­fis­sio­nal. ‘‘Às ve­zes me dá um va­zio di­fí­cil de ex­pli­car. Sin­to-me um teó­lo­go si­len­cia­do.’’

5 comentários:

  1. Realmente, viver no Brasil como teólogo é quase impossível... ou se vive como professor com uma boa carga horária ou faz-se teologia nas horas vagas... Poucas igrejas apóiam a tarefa do teólogo e nas igrejas evangélicas é ainda mais raro... Aliás quantas igrejas contam em seus quadros com algum membro que tenha o cargo na instituição de teólogo? Ou se é Pastor ou Professor de escola bíblica, mas teólogo? Já senti até uma certa discriminação com o título de teólogo, quando intitulei-me assim... Acho muito estranho que a maioria dos seminários e faculdades de teologia colocam a ênfase na formação pastoral, isto é todos saem pastores, quase ninguém opta por seguir como teólogo...
    Um grande abraço João.

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  2. Ola João, esse relato é digno do nosso Brasil, pais que não apóia os bons, aqui só tem mídia para bandido. E, as igrejas estão seguindo a mesma coisa dos políticos, pastores medíocres, não contratam pessoas capacitadas com medo de perder a santidade diante do púlpito.
    Ai a resposta está nesse dilema monstruoso. A morte em vida de uma pessoa capacitada com tanto para repassar, e Deus deixa isso acontecer somente para cobrar no final com juros destes que foram escolhidos para amar o seu rebanho. Cada dia sinto que Jesus esta próximo de vim. Não falta ver mas nada neste mundo

    abraço
    ps sigo seu blog
    se quiser fazer uma visita ao nosso, fique a vontade ok?
    paz meu irmao

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  3. Amigo Joao,
    quero agradecer a sua assinatura no nosso blog.
    estamos honrado com sua presença.
    obrigado

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  4. Realmente a vida nós trás surpresas, eu conheço o Marcelo de vista quando cursava faculdade, não sabia desta situação. Mas a partir desta leitura já vejo ele como exemplo de vida, vou o chamar para jogar xadrez a próxima vez que encontrar com ele.

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  5. Como a "vida" é! vi seu comentário no blog de um amigo (teologo.org) e vi dar uma olhada no seu e me deparo com essa história. Hj estava lamentando e chorando um pouco justamente por estar vivenciando algo bem parecido com a história do Marcelo...gastei um bom tempo da vida estudando teologia, hebraico, grego...e até dei aulas em um seminário (algo q ainda faço hj como voluntário em um outro), mas devido as idéias neopentecostais, ele foi "deixado de lado" e fechou o ano passado - ano o qual fiquei desempregado. As vezes me sinto meio como q enganado, não sei...deve ser essa frustração q o Marcelo coloca..no meu caso estou casado, fazendo faculdade de filosofia - acreditando q na rede pblica serei mais feliz por sustentar minha casa fazendo o q gosto, mas é lamentável essa nossa situação...enfim, por me identificar com a história, usei seu espaço para desabafar um pouco...q Deus tenha misericordia do Brasil...

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