23 de nov de 2009

Matar ou deixar morrer?



Por: João H. R. Marçal

A morte não é um dos assuntos mais discutidos dentro das igrejas. Ainda é um tabu que deve ser vencido e encarado de forma diferente. Penso que nós, cristãos, sejamos as pessoas que não temem a morte, ou pelo menos, não devíamos temê-la. Mas ao que tenho percebido ela ainda é temida também no meio cristão.

Em uma determinada igreja que visitei o pastor perguntou aos membros que lá se encontravam se todos tinham certeza da salvação. Quem estaria com Cristo se morresse naquele momento, e a resposta foi que quase todos levantaram as mãos dando a certeza de que estariam com Cristo se a morte viesse ao encontro deles. Mas logo em seguida o pastor pergunta quem gostaria de estar com Cristo naquele exato momento, e nenhuma mão se levantou. Isso mostra o quanto a morte é temida no meio cristão.

Em João 11:25 lemos: Disse-lhes Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra viverá.

Esta é a nossa esperança? Se não for, temos que repensar a morte. Já que ela é algo inevitável, por que não vê-la de forma diferente?

Em muitos hospitais, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, existe um problema de uma gravidade sem medida, pessoas que estão em leitos de morte esperando que esse momento chegue. A morte não é uma doença a ser vencida, assim como a vida, a morte também é real e está para todos. Em meio a tanta sofisticação tecnológica, escolas de medicina cada vez mais bem preparando seus médicos, a industria farmacêutica produzindo mais e mais drogas que dão suporte ao doente, está o moribundo que se torna vítima desse desenvolvimento desenfreado da tecnologia na área da saúde.

Fala-se muito em humanização, mas pouco em praticar essa humanização. Os que cercam o moribundo tendem a poupá-lo e ocultar-lhe a gravidade de seu estado. A verdade começa a ser problemática. O doente não deve saber nunca que seu fim se aproxima. Tornou-se regra moral que o doente morra na ignorância de sua morte.(Problemas atuais de Bioética, pg 254). Um dos princípios da Bioética é a Veracidade a Honestidade, ou seja, não deve-se mentir ao paciente que merece conhecer toda a verdade sobre a sua doença e tratamento.

Não se vê líderes religiosos, a capelania mal funciona e os pacientes estão apenas em seus leitos, à mercê, esperando pela morte. A dignidade humana não se perde em situações de dependências ou de doença e sofrimento humanos. (Eutanásia, por que abreviar a vida, pg 142).

Entre a cura e a morte de uma pessoa está o amarás, principal mandamento deixado por Jesus. Quando o assunto é a Eutanásia (termo grego que significa boa morte), muitas igrejas se isentam de debatê-lo, dizendo que somente Deus tem o direito de tirar a vida, ficando assim isentas de quaisquer responsabilidades. A essência do evangelho é vida e paz, e só se morre bem quando se vive bem.

Jesus nunca virou as costas para as pessoas que o procuravam, deu vida a todos, curou a todos, amou a todos e Ele faz isso nos dias de hoje através da igreja, ou seja, através de nós. Não podemos decidir pela vida dos outros, mas também não podemos deixar de participar do sofrimento alheio.

A realidade da morte vai muito mais além do que possamos se quer imaginar. Quando no final do século XIX morria-se junto da família, com os filhos, netos e amigos, próximos ao leito de morte do moribundo, hoje se morre nas UTIs solitariamente. Há dignidade nisso? Há amor pelo que está no leito de morte?

O problema maior entre o matar e o deixar morrer é exatamente o que existe entre os dois, o prolongamento no processo de morrer. Se por um lado evita-se o abreviamento da vida com a prática da eutanásia, por outro a obstinação terapêutica prolonga o sofrimento daquele que se encontra no leito de morte e também o sofrimento de seus entes queridos. A ética cristã não se centra no “belo e são”, mas considera o enfermo uma pessoa cujo cuidado deve ser privilegiado. (Eutanásia, por que abreviar a vida, pg. 105).

A vida é um dom valioso, mas deve ser mantida a qualquer custo? Os pacientes que se encontram em fase terminal devem ter suas vidas abreviadas por conta da situação em que estão? Estes são questionamentos em que, nós cristãos, temos que ter em mente, pois não sabemos em que momento seremos confrontados com situações desta natureza.

A Carta Pastoral do Colégio Episcopal sobre Bioética: reflexão sobre o dom da vida nos esclarece qual é a visão da Igreja Metodista a respeito do aborto, pesquisas com células-tronco, organismos geneticamente modificados e clonagem, mas não aborda a Eutanásia, assunto também de interesse da Bioética. Mas mesmo não abordando este assunto a Carta Pastoral deixa claro que:
- A vida é um dom de Deus (Gn1 e 2, Sl 8); cremos no Deus criador;

- O propósito de Deus inclui indivíduos, mas não por interesses individuais que comprometam a Sua criação. (A Carta toda pode ser vista no end: http://www.metodista.org.br/index.jsp?conteudo=4497#Cartas_pastorais ).

Dentro desta visão Bioética e cristã, podemos encarar o processo de morrer com os nossos corações descansados em Deus. Não há necessidade de temer a morte o que precisamos é rever o conceito de morte.

Com este pequeno texto tento apenas trazer ao seio da Igreja uma realidade que se encontra não tão distante de nós. Não quero aqui aprovar ou desaprovar nada, busco simplesmente encarar esta realidade de frente, traçando pontos positivos e negativos sobre a reflexão Bioética e teológica do assunto em questão.

Que Deus, em sua infinita misericórdia, possa nos dar o conhecimento e a sabedoria necessários para agirmos de forma correta, dentro da ética cristã, quando problemas desta natureza bater à nossa porta sejam parentes, amigos ou irmãos da nossa comunidade de fé.

4 comentários:

  1. maneiro seu post... acesse meu blog ou twitter- @aluoliver... Um abraço

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  2. Esta interdisciplinariedade dentro dos assuntos abordados em seu blog, demonstra uma perspectiva teológica equilibrada. Estarei seguindo seu blog.
    www.vivendoteologia.blogspot.com

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  3. Olá João, obrigado pelo seu comentário no meu blog. Gostei muito do seu blog tb e creio que temos assuntos em comum. Espero podermos trocar idéias. Abraços

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  4. Olá João Marçal, conheci suas páginas através do blog "Círculo Teológico", e o tempo que aqui me detive lendo-as, fez com que tivesse um grande apreço pelas mesmas. Estarei lhe acompanhando.

    Abraços Marco

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