11 de abr de 2009

A oração como macumba cristã



“Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa”.

Quem disse isto ou é o maior cara de pau do mundo, ou, então, diz o que diz porque pode bancar o que afirma.
Entretanto, para quem lê desavisadamente, parece que Jesus está prometendo o Baú dos Desejos feitos prece.
Todavia, não é assim.
Ele não manda que se peça o que se quer, mas sim que se deseje o que a Deus e de Deus se possa pedir.
Por isto Tiago diz:
“Pedis e nada tendes; pois, pedis mal, para esbanjardes nos vossos prazeres”.
João complementa afirmando:
“Pois sabemos que obtemos o que lhe pedimos, pois é segundo a sua vontade que pedimos”.
Isto nos é dito porque quase sempre as orações são preces do egoísmo, do hedonismo ou da dor irrefletida.
Pouca gente ora por prazer e amor; e com a alma cheia de gratidão em todas as coisas.
Isto porque o espírito da religião quase sempre faz a pessoa crer que haja uma contravenção prometida na oração.
Daí se ouvir pessoas, afirmando suas causas, dizerem: “A oração tem poder” — visto que lhes pareça que “orar” seja a macumba permitida pelo “Deus” que não é o diabo.
A crença é que “Jesus” seja uma espécie Grau 33 da Maçonaria Universal, e que os crentes sejam os fies cúmplices Dele na Grande Loja Cristã.
Na realidade se crê que a “Igreja” seja a Loja. Seja o lugar dos confrades de Deus. Seja o lugar/vínculo entre o Grande Mestre [Jesus] e os demais maçons de “igreja”, especialmente os pastores e sacerdotes oficiais.
No alto de tudo está o Grande Arquiteto do Universo dos Crentes: “Deus”.
Para outros, menos sofisticados, quando pensam em orações respondidas segundo as suas vontades e desejos, e não segundo a vontade de Deus, a melhor imagem de oração como contravenção solidária é a Máfia.
Nesse caso “Jesus” é o Chefão, a “igreja” é a Família, e os crentes simples são os filhos dos “gângsteres-sacerdotes”, que são os representantes dos interesses do Chefão e da Família.
Nesse caso Deus é “Deus” conforme “Deus” seja para a Máfia.
E creia: não existe máfia sem “Deus”.
Quase todo contraventor é profundamente religioso e supersticioso, assim como quase todo traficante é cheio de “crença” em “Deus”.
Sei o que falo. Passei três anos conversando com os principais traficantes do Brasil em Bangu I.
Uma vez “Celsinho da Vila Vintém”, que eu havia conseguido transferir de Bangu I para o presídio Milton Dias Moreira, desobedeceu ao acordo que tinha comigo — eu havia conseguido transferi-los com a condição de que não fugissem, ele e mais outros 11, entre eles “Gregório, o Gordo”, bem como o “Japonês”.
Pois bem, o “Celsinho” fugiu e voltou para a pobre Vila Vintém, no Rio.
Um mês depois ele havia matado dezenas...
Tocou terror geral...
As senhoras, as “tias” da favela, pediam a ele que não fizesse mais aquela vingança contra os que ele julgava que o haviam traído.
Ele disse que somente ouviria a mim...
Era o meio da Operação Rio, com o exercito nas ruas e nas favelas, e as Polícias em estado de guerra — 1994.
Foi uma mirabolância chegar até ele... De madrugada... Largado no escuro no meio de um terreno baldio no coração do nada, na Vila Vintém.
Ele pulou do alto de uma laje até onde eu estava!...
“Revendo, não me amaldiçoe. Me abençoe!” — foi logo pedindo, como se eu fosse um bruxo com poderes de matá-lo com uma palavra.
“Tô matando, mas é só malandro e traidor. Ponho o corpo no pneu e toco fogo mermo... Mas, pastor, a causa é justa... Ponha a mão na minha cabeça!...” — gritava ele, em pânico, temendo que eu dissesse que ele estava amaldiçoado.
No entanto, o que ele cria era que, como eu estivera com ele e outros 47, durante três anos, duas vezes na semana, e ajudara as famílias deles, e fizera com que direitos adquiridos fossem por eles ganhos — que isto me fazia cúmplice dele; e mais: que, por meu intermédio, Deus se faria sócio dele em orações e interesses.
Em geral é o mesmo espírito que encontro entre os crentes!
Como aceitaram a Jesus, se batizaram, dão o dízimo, cantam no coral ou nos grupos de louvor, aceitam as ordens pastorais e vivem dentro do ambiente físico do templo — pensam que, por tal razão, sejam da Família, ou da Loja, ou da Confraria, ou do Bando de Jesus.
De fato “crente” acaba se convencendo que Jesus seja o líder do bando dos fieis aos cultos e no dízimo.
Ora, tais “pactos” feitos entre eles e “Deus” pela via da Loja, da Família ou da Gang, dão ao crente esse sentimento que, pela oração, Deus esteja disponível para a contravenção contra a vida, e até contra o que Ele mesmo chame Verdade.
Quando o espírito é esse, creia: toda oração respondida é respondida pelo diabo como deus dos espíritos existentes em ódio, amargura e vingança.
Ou seja:
Quem responde as orações da morte e do ódio é sempre aquele que vem para roubar, matar e destruir.
Assim, dependendo da oração que se faça, se estará orando a Deus ou ao diabo.
O que determina uma oração não é seu ato, nem tampouco se o nome “Jesus” é utilizado, e nem se o termo “Deus” aparece o tempo todo na prece, mas sim exclusivamente seu espírito e seu conteúdo.
Dependendo do conteúdo existencial de quem ora e dependendo do que se pede, a oração vai para Deus ou vai para o diabo — falando do modo mais infantil possível, pra ver se sou entendido.
O endereço da oração é determinado pelo que o homem tenha no coração, e não na boca.
A oração é sempre o desejo...
Se o desejo for bom e do bem, a oração será boa e para Deus.
Se desejo for mal e do mal, a oração é uma macumba feita com despacho.
Por isto, digo:
Não peça a Deus aquilo que é o diabo que gosta de atender!
Oração a Deus mesmo, saiba: somente acontece segundo a Sua Vontade.
O mais é macumba...

Nele,

Caio
6 de abril de 2009
Lago Norte
Brasília
DF

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